ANÁLISE HERTZBERGER

Após a leitura do livro Lições de Arquitetura de Herman Hertzberger, o olhar sob espaços do cotidiano, aqueles nunca observados com cautela e em seguida questionados, é transformado drasticamente. A partir dos conceitos abordados pelo arquiteto holandês, é possível criar análises que vão de espaços pessoais, como o quarto, até espaços públicos, como a rua, ambos onde espera-se algumas particularidades para que o local seja otimizado e esteja propício para o melhor aproveitamento do usuário.

A começar pelo meu quarto, sabe-se que ele é um espaço mais privado e individual em relação ao resto da casa. Ainda que esteja inserido dentro de uma moradia compartilhada com familiares, seja acessível a qualquer um e o grau de acesso a ele seja uma questão apenas de convenção, todos os outros que não são usuários ativos do quarto sentem-se como visitantes, o que se dá por razões como o fato da porta de entrada não possuir visão para o ambiente por trás dela, mostrando não ser tão acessível quanto o cômodo contíguo à porta.

Além disso, a partir do momento que o quarto é designado como meu, eu me torno a responsável pela organização, manutenção, zelo e por personalizar o local de acordo com minhas preferências. Embora o espaço não possua muitos incentivos (que são necessários e devem ser estimulados pelos projetistas) para que eu realize acabamentos, a simplicidade das quatro paredes que o delimitam me levou a acrescentar uma estrutura de nichos, na qual eu posso, por meio de decorações e objetos que expressem a minha individualidade, fazer com que eu tenha mais envolvimento com o ambiente como um todo, ilustrando a ideia do Hertzberger de “se você não tem um lugar que possa chamar de seu, você não sabe onde está”.

    Saindo do quarto e seguindo um pouco pelo corredor, observa-se um espaço, primeiramente pensado com a função diferente, porém como não se mostrava necessariamente adequado para tal, posteriormente, foi erguida uma parede adjacente a do corredor e assim foi adicionado mais um quarto à casa. O autor do livro define que a primeira consideração que deve ser feita no momento de projetar um determinado espaço é estabelecer para que ele servirá ou não servirá. Apesar do espaço grande oferecer uma maior gama de possibilidades, ele pode ser tão inadequado quanto a falta de espaço, que inviabiliza a utilização para finalidades diversificadas. Dessa forma, partindo da ideia de que “o espaço deve ser articulado para criar lugares”, concluo que a parede levantada com o objetivo de criar uma unidade espacial que acomodaria um padrão de uso e uma utilidade muito mais proveitosa em comparação ao que foi pensado inicialmente.

        Seguindo até a varanda da casa e logo depois até a entrada, algumas caracterizações levantadas por Hertzberger podem ser notadas, a primeira sendo o conceito do “espaço habitável entre as coisas”. Muitas das vezes, nossas habitações possuem partes projetadas que apresentam as condições necessárias para desempenhar um potencial de acomodação que não foi inicialmente planejado. Quando bem analisado, conseguimos encontrar em nosso ambiente cotidiano diversos espaços capazes de exercer funções jamais imaginadas pelos projetistas, como por exemplo, no meu caso, o parapeito da varanda se torna um apoio para objetos como copos e, quando não há cadeiras suficientes ao redor da mesa, também torna-se um assento.

        Ainda situando-se na varanda, continuando no âmbito do espaço habitável e pensando que “para que o contato possa se estabelecer espontaneamente, é indispensável certa informalidade, certo descompromisso”, analiso também os degraus que levam até o portão do quintal, os quais sua função original foi convertida em apoio para plantas e, quando necessário, também servem de banco para os sobem o lance maior de escadas vindo do portão de entrada e optam por procurar a forma de assento mais próxima e acessível. 


        Aproximando da entrada, é facilmente observado o conceito de intervalo, que consiste em oferecer uma transição e conexão ideal entre áreas com diferentes demarcações territoriais. O espaço aberto entre o portão de entrada e as escadas que dão acesso a parte inicial da casa ilustra perfeitamente essa concepção, haja vista que é ali que toma espaço as boas-vindas e as despedidas, também onde começamos a sentir a sensação de estar no que chamamos de lar. Espaços como esse são de extrema importância, exercendo o papel de proporcionar interações sociais e sendo a materialização da ideia de hospitalidade.

       Por fim, chegando até a rua, é visível que pouca influência na dinâmica, organização e aparência é efetivada ali. A Coronel Ramos consiste em uma rua consideravelmente larga, com o fluxo de circulação bem notório e composta por um misto de residências e comércios, lado a lado. Por se tratar de uma localização bastante aproximada do centro da cidade, o conceito de rua como espaço de convivência e extensão comunitária das moradias é quase que completamente perdido. Esses detalhes influenciam os moradores a não se envolverem e se apropriarem da rua onde vivem, desencadeando na perda do significado original e, posteriormente, criando pessoas distantes e alienadas, que se tornam cada vez mais suscetíveis aos efeitos negativos do controle social autoritário.






    

    




 


Comentários

  1. O texto foi muito bem escrito e articulou bem os conceitos de Hertzberger com seu espaço. No entanto, o texto ficou muito sucinto e sente-se a falta de mais elementos gráficos, fazendo com que algumas descrições e conceitos ficassem em um âmbito mais especulativo. A finalização do texto apresenta, também, uma perspectiva mais pessoal, trazendo conceitos mais políticos e filosóficos para a sua percepção do espaço.

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